← Blog

18 de maio de 2026

Avareza e generosidade: o filho de comerciante que abraçou a pobreza

São Francisco de Assis não nasceu pobre — nasceu herdeiro de um dos comerciantes mais ricos de Assis. A sua ruptura pública com o pai é um dos episódios mais radicais da luta contra a avareza em toda a história da Igreja.

Poucas histórias ilustram com mais força a luta contra a avareza do que a conversão de Francisco Bernardone, filho de Pietro di Bernardone, um dos mercadores de tecidos mais bem-sucedidos da cidade italiana de Assis, no início do século treze. Francisco cresceu cercado de conforto e destinado a herdar um negócio próspero — e é justamente por isso que a sua ruptura com esse mundo se tornou um dos episódios mais estudados da hagiografia católica.

A cena da praça pública

Depois de uma conversão progressiva, marcada por doações a igrejas em ruínas e aos pobres — doações que o pai considerava um desperdício vergonhoso do patrimônio familiar —, Pietro levou o filho ao bispo de Assis para deserdá-lo publicamente. Segundo o relato tradicional preservado pelos primeiros biógrafos franciscanos, Francisco não apenas aceitou a deserdação: diante de toda a cidade, despiu as próprias roupas — símbolo de tudo o que recebera do pai — e as devolveu, declarando que dali em diante chamaria só a Deus de Pai. É uma das rupturas mais radicais e mais públicas com a avareza já registradas na tradição espiritual: não uma simples esmola generosa, mas a renúncia total ao próprio direito de posse.

"Senhora Pobreza"

Francisco levaria essa ruptura adiante ao longo de toda a vida, chamando a pobreza, numa linguagem que impressionou até seus contemporâneos, de sua "Senhora" — uma espécie de compromisso quase matrimonial com o desapego total. Não se tratava de desprezo pelos bens criados, que ele via, ao contrário, como dons de Deus dignos de louvor — a sua oração mais famosa, o Cântico das Criaturas, celebra o sol, a lua, a água e até a morte como irmãos. O que Francisco combatia não era a existência dos bens, mas a posse que aprisiona o coração — exatamente a distinção que a tradição teológica sempre fez entre usar os bens e ser usado por eles.

Aquele que possui alguma coisa não pode, sem trabalho, livrar-se da preocupação por ela; frequentemente, por uma coisa material, perde a caridade espiritual.São Francisco de Assis, na tradição da sua primeira Regra

Uma virtude que Santo Tomás distingue com cuidado

Santo Tomás de Aquino, escrevendo décadas depois da morte de Francisco, trata a virtude oposta à avareza sob o nome de liberalidade (Suma Teológica, II-II, q. 117) — e faz uma distinção útil: a liberalidade não exige que todos abracem a pobreza radical de Francisco, mas exige de cada um, conforme o seu estado, um uso reto e desapegado dos próprios bens. Para o religioso, isso pode significar a renúncia total; para o leigo com família e responsabilidades, significa administrar com justiça e generosidade aquilo que possui, sem que o coração se prenda a isso. O radicalismo de Francisco não é a régua para todos — é o sinal extremo de uma virtude que, em grau menor, todo cristão é chamado a viver.

O que Francisco deixa como legado prático para quem enfrenta a avareza, mesmo sem imitar seu gesto na praça de Assis, é a pergunta que ele levou ao extremo: quem, de fato, possui quem — eu possuo os meus bens, ou são eles que me possuem?

← Ver todos os textos