Um diário de discernimento não é um diário comum. Não se trata de narrar o dia, mas de fazer, repetidamente, um pequeno conjunto de perguntas que a tradição espiritual identificou como os melhores caminhos para conhecer a própria alma. Este guia explica como estruturar esse hábito, mesmo escrevendo apenas duas ou três frases por dia.
A base: as três potências da alma
Antes das perguntas específicas, vale lembrar o que está por trás delas: a alma age por três potências — memória, inteligência e vontade. Um bom diário de discernimento não pergunta apenas "o que eu fiz", mas também "o que lembrei", "o que entendi" e "o que quis" — porque é exatamente aí, nessas três faculdades, que o pecado começa e a virtude cresce.
Sete perguntas para usar ao longo da semana
Não é preciso responder às sete todos os dias. Escolha uma ou duas por dia, ou dedique um dia da semana a cada uma:
- Tentação — Em que ponto fui atacado hoje, e resisti ou cedi?
- Pensamento — Ao acordar, ou quando estive sozinho, para onde se inclinaram meus pensamentos mais ordinários?
- Desejo — Quando minha mente descansou, para onde foram os meus desejos mais espontâneos?
- Sentimento — O que hoje me deu mais alegria, e o que me deu mais tristeza?
- Ações — O que fiz hoje, e qual foi o motivo real por trás disso — não o motivo que eu diria em público, mas o verdadeiro?
- Resistência à graça — Em que momento senti um chamado ao bem e escolhi, mesmo assim, não segui-lo?
- Inspiração — Nos momentos de mais fervor, que sacrifício ou gesto concreto senti que Deus me pedia?
Como escrever sem transformar isso num fardo
O maior risco de qualquer diário espiritual é abandoná-lo depois de duas semanas por parecer trabalhoso demais. Por isso a regra mais importante é: escreva pouco, mas escreva sempre. Duas frases sinceras, feitas todos os dias, valem mais do que uma página bem escrita uma vez por mês. Anote também a data e, se possível, o período do dia (manhã, tarde ou noite) — isso ajuda, meses depois, a enxergar padrões que no dia a dia passam despercebidos.
Revisando o que foi escrito
De tempos em tempos — a cada duas ou três semanas —, releia o que anotou. Não procure um veredito imediato; procure repetições. Se a mesma tentação, o mesmo pensamento ou o mesmo motivo aparecer com frequência incomum, ali está provavelmente uma pista sobre o próprio defeito dominante — o assunto de outro guia prático deste blog. Esse é, afinal, o objetivo maior do diário: não acumular registros, mas, com o tempo e com paciência, conhecer-se melhor diante de Deus.
É exatamente essa estrutura de sete perguntas — chamada, na tradição, de meios de conhecer o defeito dominante — que organiza o diário de discernimento dentro do Contríto, com espaço simples para registrar cada resposta e revisitá-la quando for útil.