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28 de maio de 2026

Gula e temperança: por que os monges do deserto combatiam-na primeiro

João Cassiano trouxe do Egito uma ordem de combate que surpreende: antes da luxúria, antes da ira, antes da soberba, os Padres do deserto ensinavam a vencer primeiro o apetite pela comida.

No início do século cinco, João Cassiano viajou do sul da França até os mosteiros do Egito para aprender diretamente com os monges do deserto e depois transmitir essa sabedoria ao Ocidente latino. No livro quinto das suas Instituições Cenobíticas, dedicado inteiramente à gula, ele registra algo que surpreende quem espera encontrar ali um vício menor: os Padres do deserto insistiam que o combate espiritual deveria começar precisamente pela gula, antes de qualquer outro vício.

A porta de entrada dos outros vícios

A razão dessa ordem de combate não era considerar a gula o pior dos pecados — os próprios monges reconheciam pecados do espírito, como a soberba, mais graves. A razão era estratégica: enquanto o apetite pelo alimento não estivesse disciplinado, nenhuma outra disciplina espiritual seria estável, porque o corpo mal governado enfraquece a vontade em todas as outras frentes. Cassiano registra a máxima que ouviu dos abades egípcios: quem não vence o ventre não pode vencer as paixões que dele dependem — porque o excesso de comida embota a mente, adormece a vigilância, e abre caminho justamente para a luxúria e a preguiça espiritual que a gula, sozinha, já prepara o terreno para receber.

Não se pode combater os outros vícios com sucesso enquanto a gula não for primeiro vencida — pois é ela que fornece a matéria de que os demais se alimentam.João Cassiano, Instituições Cenobíticas, livro V

Discrição, não extremismo

Um ponto que Cassiano faz questão de esclarecer, e que a tradição espiritual sempre repetiu depois dele, é que o combate à gula não significa jejum extremo ou desprezo pelo corpo. Ele narra o caso de monges que, por excesso de zelo ascético, arruinaram a própria saúde e tiveram de abandonar a vida monástica — um dano tão grande, para a comunidade, quanto o da própria gula. A virtude buscada não é a privação máxima, mas aquilo que a tradição chamaria de discrição: comer o necessário, com gratidão, sem fazer da comida nem um ídolo nem uma guerra.

Santo Tomás e a ordenação da temperança

Santo Tomás de Aquino, ao tratar da temperança como virtude cardeal (Suma Teológica, II-II, q. 141), formaliza essa mesma intuição egípcia numa linguagem mais técnica: a temperança não suprime o apetite sensível, mas o ordena segundo a razão, permitindo que o corpo receba o que precisa sem que o apetite se torne senhor da vontade. É a mesma doutrina que Cassiano trouxe do deserto, agora vestida com o rigor da escolástica — mas a intuição original permanece intacta: o primeiro degrau de qualquer combate espiritual sério começa, com frequência, à mesa.

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