A família de Santo Tomás de Aquino, nobres do reino de Nápoles, tinha planos muito diferentes dos que a graça reservava para ele. Quando o jovem Tomás anunciou, por volta de 1244, que entraria para a recém-fundada Ordem dos Dominicanos — mendicante, pobre, sem prestígio social —, os irmãos o sequestraram e o mantiveram preso durante quase um ano numa torre da família, tentando dissuadi-lo por todos os meios.
O tição contra a tentação
Foi nesse cativeiro que os primeiros biógrafos de Tomás — sobretudo Guilherme de Tocco, cuja obra serviu de base ao processo de canonização — registram o episódio mais célebre de toda a sua vida antes do sacerdócio: os próprios irmãos, desesperados, introduziram no quarto uma mulher com a intenção explícita de seduzi-lo e assim quebrar sua determinação. Segundo o relato tradicional, Tomás, sem hesitar, tomou um tição em brasa da lareira e expulsou a mulher do quarto, traçando em seguida uma cruz na porta com o próprio carvão ainda aceso. A tradição acrescenta que, exausto pelo confronto, ele caiu num sono profundo e sonhou que anjos vinham cingi-lo com um cordão de pureza — episódio que deu origem à devoção posterior conhecida como Cordão de Santo Tomás.
Por que essa cena importa mais do que parece
O detalhe que a tradição espiritual sempre destacou nessa história não é o milagre do sonho, mas a ação imediata e física de Tomás: ele não ficou deliberando, não tentou negociar consigo mesmo, não confiou na própria força de vontade para resistir "com calma" à presença da tentação dentro do quarto. Agiu primeiro, e refletiu depois. Essa reação corresponde exatamente ao que a própria Escritura recomenda para esse combate específico — "vigiai e orai, para que não entreis em tentação" (Mc 14,38) —, e ao que Aquino, já teólogo maduro, ensinaria formalmente: a castidade não se defende no meio do combate, mas na fuga decidida da ocasião, antes que a vontade seja posta à prova além do que consegue suportar.
Fugi da fornicação. Todo pecado que o homem comete é fora do corpo; mas quem se prostitui peca contra o próprio corpo.1 Coríntios 6,18
A castidade segundo o próprio Tomás
Décadas mais tarde, já como o maior teólogo da sua ordem, Tomás trataria da castidade com a mesma precisão com que tratava de qualquer outra virtude: como parte da temperança, que governa os apetites sensíveis segundo a razão iluminada pela fé (Suma Teológica, II-II, q. 151-152). Ele distingue com cuidado a castidade dentro do casamento — que ordena o uso do corpo ao seu fim próprio — da castidade perfeita dos consagrados, que renunciam a esse uso por amor mais direto a Deus. Em ambos os casos, insiste, a virtude não nasce da ausência de tentação, mas da vitória repetida sobre ela — algo que ele mesmo, ainda jovem, já havia vivido literalmente de tição em punho.