Muito antes de Réginald Garrigou-Lagrange sistematizar o "defeito dominante" em As Três Idades da Vida Interior, o bispo de Genebra, São Francisco de Sales, já orientava as almas que dirigia a procurar aquilo que chamava de "inclinação predominante" ou "afeição dominante". Nas suas cartas de direção espiritual, ele insistia que cada pessoa carrega um fio condutor secreto, do qual quase todas as suas faltas dependem — e que descobri-lo vale mais do que combater sintomas isolados um a um.
Uma tradição de três séculos, não uma teoria isolada
Garrigou-Lagrange, dominicano e professor de teologia espiritual no Angelicum, em Roma, na primeira metade do século vinte, não inventou esse conceito: ele o recebeu da tradição salesiana e o inseriu dentro de um edifício teológico mais amplo, apoiado sobretudo em Santo Tomás de Aquino e em São João da Cruz. Essa continuidade importa: não se trata de uma técnica moderna de autoconhecimento, mas de um discernimento que atravessa a experiência espiritual católica de geração em geração, sempre chegando à mesma conclusão — a alma tem uma raiz de desordem própria, e não um conjunto disperso de falhas soltas.
Onde isso se encaixa nas "três idades"
O próprio título do livro de Garrigou-Lagrange aponta para algo que costuma passar despercebido: a vida interior, segundo a tradição mística que ele sistematiza, atravessa três grandes períodos — a via purgativa, a via iluminativa e a via unitiva. Não são etapas cronológicas rígidas, mas fases de purificação progressiva. O combate ao defeito dominante pertence, de modo especial, à via purgativa: é o trabalho ainda inicial de desobstruir o terreno antes que a alma possa avançar para uma união mais profunda com Deus.
Enquanto o amor de si mesmo não é vencido em seu último reduto, a alma permanece, em certo sentido, presa ao limiar da vida espiritual — por mais ferverosa que pareça em outros aspectos.da tradição espiritual, sistematizada por Garrigou-Lagrange
O temperamento como matéria-prima, não como culpa
A tradição espiritual católica, desde os Padres do deserto, sempre associou as inclinações da alma a quatro temperamentos clássicos — sanguíneo, colérico, melancólico e fleumático — herdados da medicina antiga, mas relidos à luz da graça. Um sanguíneo tende à leviandade e à busca de prazer; um colérico, à dominação e à impaciência; um melancólico, à tristeza e ao escrúpulo; um fleumático, à indolência e à falta de iniciativa. Nenhum desses temperamentos é, em si, pecado: são a matéria-prima sobre a qual o amor-próprio constrói o seu império particular em cada alma, e sobre a qual a graça, com paciência, constrói a virtude.
É por isso que dois coléricos podem ter o mesmo defeito dominante — a ira — mas vivê-lo de formas diferentes conforme o grau em que o amor-próprio já foi, ou não, desalojado do centro da alma. A raiz é sempre a mesma: não o temperamento, mas o amor desordenado de si que se serve dele. E é exatamente esse amor de si, e não o temperamento em si, que a via purgativa se propõe a desmontar, peça por peça, ao longo dos anos.
Reconhecer essa origem tríplice — Francisco de Sales na prática da direção espiritual, Garrigou-Lagrange na sistematização teológica, e a tradição dos temperamentos na leitura da própria natureza — é o primeiro passo antes de qualquer tentativa de nomear o próprio defeito. Sem essa moldura, o exercício vira introspecção psicológica; com ela, permanece o que sempre foi: um capítulo da vida de graça.